o disco mal prensado

ou como passei a odiar Scorpions

em meados dos anos 80 do século passado, trabalhava eu numa pequena fábrica que “manufacturava” umas aparelhagens Hi-Fi da marca AKAI. Neste cenário idílico de pastos e campo entre Trajouce a Abóboda, produziam-se equipamentos segundo o maior rigor japonês.

para contextualizar a geração corrente, por aparelhagem leia-se, um conjunto de: receptor de rádio, leitor e gravador de cassetes, gira-discos de vinil, amplificador e colunas. sim, está ausente o leitor de CD’s porque apesar de já ter sido inventado, não era comum ser comercializado em Portugal.

esta aparelhagem era composta por elementos separados, completamente em contraste com o que se pode comprar hoje. É certo que os equipamentos que eram produzidos nesta fábrica e vendidos em Portugal estavam situados numa faixa de preços que os tornava pouco acessíveis aos comuns mortais.

e é no meio desta situação que é lançado em 1984 (ou 1985, a minha memória já não é o que era) um single com a nova faixa dos Scorpions, o infame “Still Loving You”. esta faixa com 4:48 (seguindo a wikipedia), era um pouco mais longa do que os habituais 3:00 das versões rádio.

estes “segundos a mais” tornaram este single numa gigantesca dor de cabeça, pois tivemos literalmente dezenas de reclamações de clientes, que diziam não ser posssível ouvir a musica até ao fim.

o gira-discos contém um mecanismo simples que, aos “x” segundos de reprodução despoleta o sistema de elevação e retorno do braço de leitura para a posição de descanso e desliga por fim o gira-discos.

ora, segundo o maior rigor japonês, todos os equipamentos eram testados e afinados com um disco “master” que continha faixas com sons diversos de forma a que se pudesse analizar o bom funcionamento de toda a electrónica.

nós usavamos apenas a faixa do “fim de disco”; aliás, esta faixa é a principal responsável que eu soubesse contar de um até vinte em japonês durante grande parte dos anos 80 e 90, sendo que agora só sei até cinco (acho).

o conteúdo desta faixa é simples de explicar, temos uma voz feminina que começa a contar de um até trinta com uma cadência certa e o mecanismo que já referi deve actuar entre o número vinte e um e vinte e três.

este valor estava nas ordens de teste e representa um valor médio para a duração de uma faixa de áudio de um LP ou de um single. mas claro, para os Scorpions isto não era suficiente, tinha que terminar bem para lá dos valores da tabela.

entram as decisões do marketing, “Ah e tal, isto não pode ser, as pessoas compram o disco e isto não toca nos nossos leitores!“. de pouco adiantou o argumento de que provavelmente o problema também existiria nos equipamentos da concorrência. “Não senhor, temos que resolver isto”, dizia o marketeiro.

no dia seguinte, havia um novo equipamento de testes na mesa, um conjunto de singles da malfadada banda com a odiosa música…

talvez percebam agora porque é que os odeio desde então.

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