José Cid – 10000 anos depois entre Vénus e Marte – Coliseu dos Recreios, Lisboa

Confesso que ainda ouço todas as musicas tocadas no sábado passado no Coliseu pelo mestre José Cid.

Este não é o José Cid que vocês aprenderam a odiar. Não é o “macaco que gosta de banana” nem “o favas com chouriço”. Esses foram os precalços de uma vida como artista num país em que sair fora da caixa era praticamente garantia de pouco ou nenhum sucesso comercial.

Também não é o artista nú com o seu primeiro disco de ouro, fruto de um protesto contra o formato playlist das rádios nacionais, que tratou de aniquilar a música nacional. É antes um músico Português que no distante ano de 1978 lança um disco a solo de rock progressivo “10000 anos depois entre Vénus e Marte”, muito na onda do que Pink Floyd e Genesis tocavam na época.

Devem portanto eliminar os anticorpos que têm relativamente a este artista e saudar a coragem para re-interpretar ao vivo um álbum gravado há 36 anos atrás.

Editado pela Orfeu, “10000 anos depois entre Vénus e Marte” vendeu pouco mais do que 1000 exemplares, que com o passar dos anos se tornou um objecto de culto de muitos ouvintes nacionais e internacionais.

Em 2014 já foi tocado várias vezes ao vivo, fruto de inúmeros pedidos dos fans, tendo tido actuações no Coliseu dos Recreios de Lisboa em Abril, no Porto e também em Agosto no Festival de Vilar de Mouros.

Posso dizer pessoalmente que estou à espera de ver e ouvir este album há mais de 30 anos, dado que me lembro de o ouvir vezes sem conta no gira-discos dos meus primos, quando passava férias em Viseu. Sim, também se ouvia por lá, Yes, Pink Floyd, Emerson Lake and Palmer e outros, muitos outros que já nem sei quais.

Este álbum em particular consta na lista da revista americana Billboard como fazendo parte dos 100 melhores álbuns de rock progressivo de todo o tempo e também está bem posicionado no site Progressive Rock Top Albums.

Hoje foi o dia em que finalmente vi e ouvi este álbum tocado ao vivo e a cores, no fantástico Coliseu dos Recreios em Lisboa. Apesar do frio, chuva e mau tempo em geral, não impediu que a sala estivesse quase cheia.

Coliseu dos Recreios Lisboa - Concerto José Cid
Coliseu dos Recreios Lisboa – Concerto José Cid

Foram apresentados temas da era rock progressivo, nomeadamente do primeiro EP “Vida (Sons do Quotidiano)”, duas faixas do novo álbum de rock progressivo a lançar em Setembro de 2015, com o título “Vozes do Além” e claro, a razão de tudo isto, o mítico “10000 anos depois entre Vénus e Marte”.

José Cid conta que quando começou a escrever as músicas para este album em 1976, estavamos no auge da guerra fria com a ameaça do terror nuclear a prever uma terceira guerra mundial. Este ambiente de possível fim da vida na terra leva Cid a imaginar uma viagem pelo espaço de um astronauta e sua companheira, fugindo do caos e destruição da humanidade, voltando 10000 anos depois a um planeta vazio, pronto a ser descoberto e onde será novamente possível começar uma nova civilização.

Esta viagem musical é toda baseada em melodias de sintetizadores de cordas (string synth), acompanhadas por guitarra, baixo e bateria. De notar o uso do Mellotron, instrumento responsável toda aquela envolvência tão típica do rock sinfónico dos anos 70.

O concerto foi único, pois reuniu em palco os músicos que acompanharam José Cid na gravação original em estúdio, o guitarrista Mike Sergeant, o baterista Ramon Galarza e o baixista Zé Nabo. Compreensivelmente, só actuaram na música que dá o título ao álbum e que tem letra de José Cid e música de Zé Nabo.

Relativamente à performance no seu geral foi boa, com lugar para imensa liberdade artística, conforme se quer em concertos ao vivo. Pessoalmente achei o som exagerado nos graves, talvez por se tratar de um espaço realtivamente pequeno e já pouco capaz para tanta potência sonora.

No final do concerto e para meu espanto, José Cid informa que este álbum vai ser tocado na íntegra na Praça do Comércio em Lisboa, durante as festas da passagem de ano 2014 para 2015.

Se perderam este concerto no Coliseu, recomendo vivamente que façam um esforço para estar eventualmente ao frio e chuva na Praça do Comércio. O que vale é que é também provável que estejam bastante tocados na noite de 31 de Dezembro o que vai certamente ajudar a apreciar ainda mais esta obra prima. É muito provavel que nos encontremos por lá!

E claro que a audiência pediu encore, ao qual a banda respondeu, não um mas dois, sendo que o segundo encore foi completamente inesperado, dado que muitas pessoas já tinham inclusivamente saído da sala :).

O primeiro encore foi “O Caos” e o segundo a música que dá o título ao álbum “10000 anos depois entre Vénus e Marte”, voltando os três músicos convidados ao placo para a interpretar.

 

(artigo escrito originalmente para o site Horários dos Festivais de Verão)

 

49 anos e muito pouca paciência

preciso de colocar coisas no ether, coloca-las de forma pública para que outros entendam “cenas”, já que a paciência tem sido pouca.

ando farto de muita coisa, especialmente das pessoas e suas atitudes. penso que tenho criado uma certa aversão à estupidez, o que é mais ou menos espectável numa pessoa que esteja há mais de 10 anos na mesma organização.

farto das decisões da política por decreto, farto da falta de decisões em processos fundamentais que vão afectar toda a organização, farto da falta de tomates para enfrentar o que tem que ser enfrentado e finalmente, a falta de visão de como é que a organização se quer ver a si mesma daqui a vá, cinco anos.

fundamentalmente, porque se queremos ser uma “coisa” de referência no panorama das “coisas”, temos que sair da nossa zona de conforto, conhecer e abraçar as novas tecnologias, de forma realmente isenta das buzzwords da corja de vendilhões que ronda os céus.

ou seja, não é por irmos para a cloud que seremos mais eficientes. a única coisa que a cloud quer dizer é que se vai dar dinheiro a terceiros.
para evoluir a sério e com honestidade, é preciso abordar o assunto do umbigo, temos que deixar MESMO de olhar só para ele.

apesar de a organização ter já mais de uma década, o mindset mantém-se no final do século 20, na era do MS-DOS. a formatação é de 80×25 sem cores e não existe rato. a documentação é em blocos de notas do merceeiro e deixamos de usar telex e passou-se ao fax…

na parte de quem tem que administrar sistemas de janelas, não há qualquer interesse em automatizar o trabalho, criar scripts para facilitar processos, documentar situações a ter cuidado, não se preparam bases de dados de equipamento e serviços prestados, trabalha-se com folhas de cálculo.

e não há organização nem (drumroll) planeamento

qual é o resultado disto tudo?

nada, não temos NADA

e passado uns anos temos pessoal altamente qualificado, mas desmotivado, toneladas de sistemas que foram sendo instalados e alguns (críticos) que ninguém sabe exactamente o que é que fazem

ninguém é responsável seja pelo que for, ninguém aprendeu com os erros do passado e claro, os mesmos erros continuam a ser cometidos com cada novo sistema que é colocado em produção.

simpático, não acham?

 

e por muito que digam, este senhor, não sendo um guru da coisa, diz montes de verdades neste vídeo, ide ver, ide!

Nova playlist no Youtube

lembrei-me de criar uma playlist no meu canal no YouTube que contenha todo o conteúdo relacionado com as minhas investigações sobre multicopters.

podem ver aqui todos os vídeos ordenados cronologicamente onde aparece a evolução desde o bicopter original até ao tricopter na sua versão actual.

diz que está na moda criar estas coisas de modo a dar aos visitantes uma melhor experiência de visualização do canal, tendo as coisas organizaditas.

a seguir a esta, criei outra sobre os disparates do Codebits :)

rock on!

 

adeus Dotclear, olá WordPress

estava planeado há séculos, mas faltou a paciência para o concretizar até agora.

ontem do nada o blog começou a dar erros e resolvi migrar isto tudo de um lado para o outro.

sei que se perderam links, imagens e outros media antigos, paciência.

 

o que interessa mesmo é o texto, as letras, as palavras e as ideias e continuar a escrever, que é o que dá vida ao blog

 

até já!

o disco mal prensado

ou como passei a odiar Scorpions

em meados dos anos 80 do século passado, trabalhava eu numa pequena fábrica que “manufacturava” umas aparelhagens Hi-Fi da marca AKAI. Neste cenário idílico de pastos e campo entre Trajouce a Abóboda, produziam-se equipamentos segundo o maior rigor japonês.

para contextualizar a geração corrente, por aparelhagem leia-se, um conjunto de: receptor de rádio, leitor e gravador de cassetes, gira-discos de vinil, amplificador e colunas. sim, está ausente o leitor de CD’s porque apesar de já ter sido inventado, não era comum ser comercializado em Portugal.

esta aparelhagem era composta por elementos separados, completamente em contraste com o que se pode comprar hoje. É certo que os equipamentos que eram produzidos nesta fábrica e vendidos em Portugal estavam situados numa faixa de preços que os tornava pouco acessíveis aos comuns mortais.

e é no meio desta situação que é lançado em 1984 (ou 1985, a minha memória já não é o que era) um single com a nova faixa dos Scorpions, o infame “Still Loving You”. esta faixa com 4:48 (seguindo a wikipedia), era um pouco mais longa do que os habituais 3:00 das versões rádio.

estes “segundos a mais” tornaram este single numa gigantesca dor de cabeça, pois tivemos literalmente dezenas de reclamações de clientes, que diziam não ser posssível ouvir a musica até ao fim.

o gira-discos contém um mecanismo simples que, aos “x” segundos de reprodução despoleta o sistema de elevação e retorno do braço de leitura para a posição de descanso e desliga por fim o gira-discos.

ora, segundo o maior rigor japonês, todos os equipamentos eram testados e afinados com um disco “master” que continha faixas com sons diversos de forma a que se pudesse analizar o bom funcionamento de toda a electrónica.

nós usavamos apenas a faixa do “fim de disco”; aliás, esta faixa é a principal responsável que eu soubesse contar de um até vinte em japonês durante grande parte dos anos 80 e 90, sendo que agora só sei até cinco (acho).

o conteúdo desta faixa é simples de explicar, temos uma voz feminina que começa a contar de um até trinta com uma cadência certa e o mecanismo que já referi deve actuar entre o número vinte e um e vinte e três.

este valor estava nas ordens de teste e representa um valor médio para a duração de uma faixa de áudio de um LP ou de um single. mas claro, para os Scorpions isto não era suficiente, tinha que terminar bem para lá dos valores da tabela.

entram as decisões do marketing, “Ah e tal, isto não pode ser, as pessoas compram o disco e isto não toca nos nossos leitores!“. de pouco adiantou o argumento de que provavelmente o problema também existiria nos equipamentos da concorrência. “Não senhor, temos que resolver isto”, dizia o marketeiro.

no dia seguinte, havia um novo equipamento de testes na mesa, um conjunto de singles da malfadada banda com a odiosa música…

talvez percebam agora porque é que os odeio desde então.

A teoria do chefe

(ou como ser criativo no uso de produtos de higiene feminina)

Todos nós em algum ponto da vida tivemos um chefe. Bom ou mau, sabedor ou idiota, foi ele que comandou as tropas durante todo o tempo que esteve a cargo da “equipa”.

Circula pela net uma imagem que distingue visualmente o chefe do líder. E é de líderes que precisamos, já chegam os chefes mesquinhos que grassam o nosso povo.

O bom chefe ouve e aconselha-se junto daqueles que fazem o trabalho todos os dias, e que encontram todo o tipo de dificuldades do trabalho real.

Já o mau chefe comporta-se com um verdadeiro Nero dos tempos modernos, apodera-se de todo e qualquer poder ao seu alcance, faz a vida negra a todos.

Incendeia discussões, coloca metade da equipa em conflito com a outra e por fim, quando lhe chegam as sugestões ao ouvido comporta-se como um penso higiénico de excelente qualidade.

Eu explico, por um lado, ”cola-se” ao chefe que está mais acima na hierarquia, pelo outro ”absorve” tudo o que vem de baixo.

nove meses de silêncio

muito tempo sem escrever, tanto para dizer.

continua a vida, o tempo não pára, tal como o arrastão continua a dragar o fundo do mar, sem se preocupar com as consequências.

e continua, sem parar.

mesmo.

por estes lados as coisas teem andado, umas vezes melhor, outras vezes pior.

houve sucesso na maioria dos casos, alguns falhanços pelo meio, não há que enganar.

o maior sucesso foi sem dúvida a conclusão da licenciatura, em Outubro de 2013, após dois meses a dar no duro e com muita edição documental. em retroespectiva, foram três anos algo duros, mas que agora eu diria que foram mais fáceis do que eu poderia ter pensado no inicio. foi acima de tudo uma grande aventura, em que a ajuda dos 5 uatla boys foi preciosa se não crucial mesmo para o sucesso total. dos cinco, só dois ainda não completaram o trabalho de fim de curso. será para breve, penso eu.

naquilo que paga os melões, houve também mudanças, mas ainda é cedo para perceber. cada vez mais estamos distantes dos reais utilizadores dos nossos produtos. o resultado é simples, as prioridades deixam de ser as reais e passam a ser as políticas. uma tristeza, cada vez mais tenho VERGONHA de dizer onde trabalho.

está instaurada a política do chefe “penso higiénico”, absorve tudo de um lado e cola-se ao que está em cima. resultado prático: uma cagada. mas não são todos assim, existem raras excepções.

finalmente consigo montar um zingarelho que voa, um tricopter. este é a terceira iteração de “coisas que voam” e desta vez penso ter feito um bom trabalho. há vídeos no meu canal do [|https://youtube.com/user/lfcorreia|en|youtube], uns melhores, outros piores, mas todos de certa forma divertidos.

nos últimos dois anos os meus progenitores deixaram-nos. ambos por doença, o que é uma merda.

salva-nos a descendência, que continuamente nos faz rir, chorar e enervar.

é o ciclo da vida.

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mais coisas num futuro breve, que hoje a inspiração não dá para muito mais.

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Pão de Trigo e Centeio

A receita que vou aqui colocar é inspirada quase na totalidade no link que podem encontrar no fim do post [1].

É sem qualquer dúvida extremamente simples de preparar e executar, só demora perto de 40 minutos no forno e no tempo que escolhermos deixar levedar (que terá sempre que ser pelo menos uma hora).

Ingredientes:

400mg Farinha Trigo 65
100mg Farinha Centeio Integral
400gr água tépida (37.5C)
10gr fermento fresco de padeiro
1 colher de chá de sal marinho

nota: sim, a água deve ser pesada :)

Utensílios:

Tigela para misturar os ingredientes
Tabuleiro para forno
Uma colher de pau
Uma espátula de silicone

Preparação:
Misturar as farinhas na tigela,
Dissolver o fermento e o sal na água tépida.

Fazer um pequeno buraco na farinha e despejar a água.

Agora vem a parte engraçada, em vez de termos de andar para aqui a amassar a massa, basta apenas envolver com a colher de pau até que a farinha esteja completamente húmida.

Tapar a tigela com um pano e deixar levedar pelo menos uma hora.

Quanto mais tempo estiver a levedar melhor, podemos até deixar a levedar durante a noite.

Chegando a altura de passar do levedar ao cozer no forno, polvilhar uma superfície com farinha (recomendo uma tábua de madeira) e transferir a massa da tigela para tábua, usando a espátula de silicone, já que a massa se vai pegar a praticamente tudo.

Polvilhar a massa com farinha e dobrar duas vezes ao meio. Polvilhar o tabuleiro onde a massa irá cozer com farinha. Passar da tábua para o tabuleiro num só movimento.

Deixar levedar mais uma hora no tabuleiro pelo menos.

Pré-aquecer o forno a 200C e assim que esteja quente colocar o tabuleiro no forno.

Coze pelo menos 40 minutos, mas se quiserem mais tostado.

Nas seguintes fotos fica a versão aqui descrita, usei um tabuleiro anti-aderente e o resultado foi bem bom.

Visitem o link de onde fui buscar a inspiração para mais pormenores.

Fiquem bem!

[1] http://chillicomtodos.com/como-fazer-um-pao-caseiro-perfeito-e-quase-sem-trabalho/

naquele dia

decidiu que já tinha trabalhado o suficiente, desligou o computador, disse um lacónico “até amanhã” aos colegas e saiu. em vez de usar o elevador, resolveu ir pelas escadas até à porta de saída, caminhou pelo parqueamento até onde tinha o carro estacionado. entrou no carro e suspirou “que dia!”. saiu do parque e conduziu sem rumo, pela estrada velha, pelo meio das povoações. a inquietude começou a assola-lo pois havia algo de muito errado com tudo o que se passava à sua volta. num dos cruzamentos, reconheceu a outra estrada, com muito mais movimento e escolheu a direcção que o levava a casa. em vez de ir depressa, foi andando devagar e, muito estranhamente, viu algo que lhe chamou a atenção, um prado verdejante. parou o carro e saiu. “que estranho, não me tinha apercebido que aqui havia uma coisa tão bonita como este campo verde”. foi então que percebeu…

naquele dia quando saíu do emprego, o sol ainda brilhava no céu

tubo de escape

já passava das onze da manhã quando decidi desviar da estrada principal.

seguir uma placa que indica um monumento ou ruína é por vezes sinal de locais com muita paz e sossego, nomeadamente quando estamos a falar de sítios perdidos no mapa.

e lá fui, seguindo a estrada estreita, à qual o meu GPS nem se atreveu a dar qualquer classificação, do tipo EM ou mesmo CM. não, desistiu logo e disse lacóniamente “caminho desconhecido”.

passaram-se alguns minutos e quilómetros, a beleza do espaço circundante disse-me que era obrigatório a abrir a janela e deixar que o ar realmente puro me invadisse o espaço interior. não é que viesse esterilizado do meu ponto de partida, mas estava pelo menos pressurizado.

abri as janelas.

fiquei imediatamente embriagado com o excesso de oxigénio e pólen, juntamente com uma panóplia de cheiros que me enebriaram os sentidos, parei o carro.

cambaleando, decidi sair por momentos, para ver se conseguia que todo o meu ser recuperasse da droga grátis que a Natureza tem para nos oferecer, de borla.

quando voltei a abrir os olhos senti uma humidade no pescoço e uma certa tontura, tinha caido na berma para cima de um tufo de ervas.

raios, estou farto de perder a consciencia cada vez que vou para o campo e respiro ar puro.

será que eu conseguia mesmo viver aqui? com tanta qualidade de ar puro? acho que não, no fundo, eu sempre soube que eu só era um tubo de escape, como tantos outros que morrem assim que os níveis de oxigénio se aproximam dos 20%, valor mais ou menos normal.

lá me levantei, tirando todo o lixo que se colou a mim, e decidi que iria ver até onde é que aquele caminho me levava.

mais alguns minutos a conduzir, chego ao destino, um parque de estacionamento em terra batida, com um simples contentor de lixo e umas placas informativas. mais abaixo fica o aldeamento, dizem que da Idade do Bronze, e la vou a desçer o caminho íngreme.

fico parado em frente a um monte de pedras, que dizem ser a porta de entrada para o espaço fortificado.

entro.

vagueio pelo espaço, com uma certa sensação de ter sido transportado no espaço e no tempo para uma daquelas séries que tenta mostrar como era a vida em tempos idos. sente-se uma presença de algo no ar, tal cemitério em dia de “zombie’s day out”.

dou comigo a tentar imaginar como seria a vida aqui, milénios atrás, como seriam os cheiros, certamente nauseabundos, como seriam as cores, talvez não tão variadas como num qualquer mercado de vila.

subo a um dos muros e sento-me.

deixo o meu olhar vagear pela paisagem que vai despindo os pormenores à passagem dos meus olhos, descubro várias construções igualmente em ruínas em colinas próximas, um rio mais lá ao fundo, vários caminhos de cabras e árvores, muitas árvores.

tiro o casaco de malha e enrolo-o a fazer de almofada e encosto-me, fechando os olhos, como se entrar em meditação fosse, suavemente aquecido pelo sol, que, ao mostrar-se e esconder-se pelas núvens me foi embalando e eventualmente acabou por me adormecer.

acordo com frio, o sol estava a por-se.

lembro-me de repente que estive deitado em cima de um muro e que qualquer movimento súbito pode fazer com que eu chegue muito rapidamente ao fundo da ribanceira.

subo a custo o caminho que me leva de volta à civilização, ao parque de estacionamento, ao meu carro e à estrada que me leva de volta.

voltarei certamente, um dia destes

(C) 2013 Luis Correia